Tá tudo uma bagunça
O debate sobre a influência da mídia nos caminhos do poder público sempre dá espaço para inúmeros pontos de vista. Alguns acreditam que o impacto é forte, pra bem e pra mal. Outros acreditam que os meios de comunicação são, muitas vezes, isentos de qualquer influência.
Talvez mais um caso a ser discutido seja a utilização de uma revista que o Valor Econômico publicará sobre etanol, que o presidente Luís Inácio Lula da Silva usará na conferência que ocorrerá amanhã, na Agência das
Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, em Roma.
Lula usa a publicação recheada de dados favoráveis a utilização em larga escala do etanol para desmanchar todos os argumentos sobre a influência dos biocombustiveis no preço dos alimentos.
Me surpreende saber que o presidente acompanha jornal em certos casos.
Como o da demissão de Marina Silva, que a mídia – nacional e internacional – tratava como ícone da
proteção do desenvolvimento sustentável da Amazônia.
O que, também deveriam ter lembrado de publicar é como o mesmo Luís, metalúrgico do ABC, respondeu ao ser questionado sobre os processos orquestrados pela Igreja Universal contra jornalistas.
“Quem escreve o que quer, ouve o que não quer.”
E pra terminar. Afirmando que o exemplo vem de cima. Vocês viram que o secretário de segurança do Rio de Janeiro confirmou que alguns jornalistas foram agredidos e torturados durante sete horas? E os torturadores eram policiais…
E assim se trata o jornalista, quando existe interesse, se lambe os pés, se não torturasse com a benção da ineficácia e impunição, para não dizer conivência do Estado. Mas essa notícia nem saiu nos jornais. Só na internet.
Pois é. Nem a grande mídia deu destaque a esse fato nessa segunda-feira.
Tá tudo uma bagunça.
Por Caio Neumann
Jornal de propaganda
Hoje sairei um pouco da linha dos jornais tradicionais e vou falar de um que nem sempre é lembrado, mas que exerce muito peso nas suas matérias. O Meio&Mensagem.
Ele já está com trinta anos e trabalha o mercado de publicidade. Mas não é só sobre propagandas que estamos falando. O marketing das empresas também entra na pauta e saber sobre certas decisões ou lançamentos de produtos ou qualquer outras ações das companhias pesa e muito para a sociedade. Além de afetar qualquer linha de investimento isso pode mexer na economia nas suas instancias mais obscuras e afetar o seu, o meu e o salário de todos. Isso sem contar os produtos que consumimos.
Com matérias rápidas, enxutas, entrevistas interessantes, fica a dica de leitura.
Por Caio Neumann
Coberturas…
Hoje vai uma dica do que fazer no seu domingão. Pela primeira vez eu comprei um jornal no domingo.
Graças ao trabalho na revista e consultoria, precisei procurar uma matéria sobre o dia 18, que é o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.
Primeiro vamos à dica. O jornal dominical é ótima fonte de recreação. Fora os inúmeros cadernos de classificados, vale a dica cultural.
No Estado de São Paulo, por exemplo, a crônica de Luís Fernando Veríssimo e a análise da nova edição de Moby Dick, realmente são enriquecedores para o leitor.
Porém, um assunto muito sério, como o abuso sexual infantil, passa desapercebido em pleno dia em que isso deveria ser mais lembrado e discutido pela grande mídia.
Novamente, vamos a um exemplo prático. A Polícia Rodoviária Federal publicou um balanço onde identificou 1.918 pontos vulneráveis à exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias federais.
Foram checados mais de 60 mil quilômetros de estradas. O Estado de Minas Gerais – que possui a maior malha viária federal do país, também registra o maior número de pontos vulneráveis a essas práticas, 290 no total.
No Rio Grande do Sul, foram encontrados 217 pontos de risco.
Segundo a Divisão de Combate ao Crime da Polícia Rodoviária Federal, é possível encontrar até dez menores em situação preocupante nesses pontos.
Na Folha ainda vá lá, consegui encontrar informações, como essa, na Folha On Line, mas nada no impresso.
Quanto mais eu me dedico a estudar jornalismo, mais me preocupo com a cobertura dos grandes veículos a questões que realmente são de interesse da sociedade ou a que eles acham que são de interesse.
Por Caio Neumann
A tragédia que virou piada
Primeiro lugar, preciso ser sincero. Me surpreendeu ir à banca e ver que único jornal que deu destaque para a entrevista de Ana Carolina de Oliveira ao Fantástico na capa foi o Agora!. Claro, a linguagem mais popular é característica do veículo. Vale citar, também, a série de reportagens da Gazeta Mercantil sobre educação, “Lição de Casa”.
Mas houve certo descontentamento em enxergar, logo que desdobrei a capa do Estado de São Paulo, a chamada, bem pequena, “Caso Isabella, Mãe vê ciúme como motivo”, talvez esse fosse o destaque mais cabível desde o começo do caso. Ontem, na televisão, vi cerca de cinco entrevistas diferentes de “especialistas” explicando porque o caso chama tanto a atenção do público, dizendo que os personagens do caso podem se encaixar em qualquer setor de qualquer sociedade, mas ainda não vi um profissional da comunicação que realmente viesse a algum espaço de destaque e dissesse, “a imprensa criou esse caso”.
Talvez o lado escritor fracassado de alguns jornalistas da grande mídia falou mais alto e fez com que os diretores de redação, editores, jornalistas e toda a bancada de cúpula cutucasse tanto essa história.
Engraçado, chegando a faculdade, em frente a banca de jornal, vi uma roda de papo com alguns senhores, o dono da banca e dois policiais da ronda escolar. Quando passava pelo grupo um senhor se dirigiu aos demais e disse “Vocês viram a personagem da novela ontem?”, e os seus colegas olharam-no com interrogação. “A novela Isabella, que agora mais uma personagem vem à tona para complicar a trama…”, e todos caíram na risada. Inclusive eu.
De tanto que se fala em algo sério, ele acaba virando piada.
Caio Neumann
Educação Pobre, Educação Rica
Hoje, na Gazeta Mercantil, foi publicada a quinta reportagem, de uma série de matérias sobre educação. O jornal traz uma entrevista de uma página e meia, com o economista Gustavo Ioschpe e mais uma matéria sobre a diferenciação entre ricos e pobres no sistema educacional do Rio de Janeiro.
Nota dez para o jornal que fez uma matéria bem escrita e com crivo crítico quanto ao sistema atual que só faz aumentar a desigualdade de classes tão latente no cenário econômico brasileiro.
Sem Palmeiras (nada contra os torcedores do alvo e verde), como a Folha e o Estado deram, e nem matéria auto-promocional na capa, como o Valor Econômico fez. A Gazeta Mercantil, apesar de ter publicado a chamada na parte inferior da capa, está de parabéns.
Mesmo com o argumento de que a Folha e o Estado não sejam segmentados à economia como a Gazeta e o Valor, o concorrente, da velha Gazeta Mercantil, que tão insistentemente lembrada, comemora 8 anos, foi infeliz, na minha concepção, na capa que escolheu.
Todos nós universitários (ou não) deveria ler a entrevista do gaúcho Ioschpe que, mesmo fazendo parte da elite, e ter se formado no exterior, se atenta às falhas da educação e apresenta problemas e mitigações pragmáticas ao sistema decadente onde as famílias que possuem melhor poder aquisitivo não pagam para que seus filhos cursem universidades públicas, enquanto os menos providos precisam se acabar para pagar as mensalidades de universidades particulares.
por Caio Neumann
Monumento Paulistano
São 138 metros de altura e 500 toneladas de aço compondo os 144 cabos importados da Espanha. A Ponte Estaiada Jornalista Octavio Frias de Oliveira me envergonha e eis que a encontro na primeira página do Estado de São Paulo.
No final da matéria do caderno Cidades/Metrópole, mais precisamente na última frase da matéria encontramos a seguinte afirmação, “Inicialmente orçada em R$184 milhões, a obra custou R$233 milhões”. Frustrante. Esse deveria ser o lead da matéria. Afinal, será que os representantes do nosso magnificente Estado, com seu histórico de honestidade, não deveriam prestar contas desses míseros R$43 milhões?
No caderno de final de semana do Valor Econômico a matéria de capa trata do problema dos congestionamentos da cidade de São Paulo. O município desperdiça 33,5 bilhões por ano por conta desse infortúnios e os investimentos necessários em transporte de massa ou ciclovias entre outros, não são pragmáticos.
Mas o Valor Econômico nem citou a obra faraônica as margens do Rio Pinheiros.
Ainda sim uma pergunta fica martelando a minha cabeça, seria melhor se os faraós Quéops, Quéfren, e Menkaure (ou Miquerinos) – pai, filho e neto – construíssem as pirâmides de Gizé às margens do Rio Nilo ou libertado os escravos que morreram na construção ou, indo mais longe, investido o capital humano em outros recursos?
Talvez o Egito não tivesse sido subjulgado por Roma.
Caio Neumann
Caso Isabella no Estado de São Paulo
Qual não é a minha surpresa quando abro o Estado de São Paulo de hoje e me deparo com uma foto da madrasta e do pai de Isabella Nardoni? Eu nem preciso saber que o nome dele é Alexandre Nardoni e o da madrasta é Carolina Jatobá. Há quinze dias a imprensa não dá folga pro caso.
No último domingo, o casal foi ver os filhos na casa dos pais de Carolina. Vejam o que vira “fato jornalístico” e vai pra primeira página do jornal e do cadernos Metrópole: …“os dois desceram a escada do sobrado por volta das 9h10”… ou “Alexandre chegou a cumprimentar os repórteres com um discreto “bom dia”. Deixou Ana Carolina entrar primeiro no carro, no banco de trás e entrou em seguida.”
A onda de futilidades não termina por aí, informações como “o carro do pai de Alexandre era um Vectra e o casal levaram para a casa dos avós dos filhos latas de leite em pó e fraldas” preenchem as laudas do jornal.
Quando vejo jornalistas mais velhos questionarem a qualidade dos mais novos, percebo – em casos como esse -que eles talvez tenham razão.
Mas uma entrevista com Boris Casoy – também na edição de hoje do Estado – traz o jornalista afirmando que não vê exageros na cobertura do caso!
Estado – O que você acha da cobertura do caso Isabella?
Casoy – Tenho acompanhado mais pelos jornais, mas acho que a imprensa brasileira não cometeu nenhum abuso ou excesso que a imprensa americana não cometeria em um caso emocionante como esse. Veja o caso Madeleine (Menina inglesa desaparecida em maio do ano passado, em Portugal). Há uma pressão grande.
Estado – Mas há excessos?
Casoy – Claro, mas também há um ponto a favor que foi quando a imprensa puxou o freio de mão e aprendeu que não podia fazer uma acusação direta. Há uma hora em que se perde o controle. A Escola Base fez escola nesse sentido.
A missão do jornalista é relatar fatos de interesse público. Quantas vezes mais os veículos tomarão carona nesse carro? Apenas depois de uma semana de superexposição vi um jornalista dizer “o casal é inocente até que se prove o contrário”. Talvez esse tenha sido o freio de mão mencionado pelo nosso colega. Mas a exposição já não acabou com a vida desse casal? Inocente ou não?
Pode ser que a única coisa que a Escola Base ensinou foi ser mais sutil ou indireto, mas causando o mesmo estrago.
Caio Neumann

