Além das notícias
Na Universidade discutimos o papel do jornalista: informar com acuidade, respeito ao interlocutor e da forma mais coesa e concisa possível.
Mas simplesmente “dar” a notícia não é o suficiente. O papel do comentarista é fundamental para refletir sobre os acontecimentos noticiados e a repercussão deles na sociedade. Talvez os indicadores econômicos, as eleições dos Estados Unidos ou o discurso de alguma autoridade não seria bem compreendido se os comentaristas não dessem o seu “pitaco”.
Esse é o real papel do jornalista: além de dar voz aos lados envolvidos em um fato, mostrar o que esse fato tem a ver com a minha vida. O Jornal da Noite, da Band, apresentado por Boris Casoy, é quase todo estruturado pelos comentários do âncora, maduro e experiente o suficiente para entender o que há de relevante na notícia.
Miriam Leitão, Alexandre Garcia – Bom Dia Brasil – Carlos Alberto Sardenberg, Arnaldo Jabor – Jornal da Globo – também representam o mesmo papel, o de considerar, ir além do assistir às notícias e reproduzir tudo sem refletir. Outros telejornais também trazem opinião, como o Jornal do SBT ou o Jornal Hoje, mas de maneira descontraída e popular. Mesmo assim, cumprem o papel de “chacoalhar” o telespectador.
Uma pena que faltem comentários no Jornal Nacional, por exemplo, uma das maiores audiências da Globo no horário nobre há quase 40 anos. Por que será?
Todo mundo é culpado até que se prove o contrário
Pode parecer coincidência a escolha do tema, mas foi proposital, afinal os urubus da grande mídia sobrevoam o “caso menina Isabella”, como todo bom apresentador gosta de chamar, há duas semanas. Assim como meu colega Caio frisou, a mídia tem dado grande importância para pequenos detalhes e, acreditem, os detalhes nesse caso, enchem a paciência e só atrapalham.
As redações de todos os telejornais, nos últimos 2 ou 3 dias, tiveram acesso exclusivo ao depoimento ou fotos da perícia ou vídeo do casal fazendo compras em tal mercado. Mas o que fica claro é que nada nesse caso é exclusivo e todos os profissionais do jornalismo estão explodindo de vontade de dar o furo que já aconteceu há duas semanas. Qualquer fato já vai logo ao ar e a repercussão às vezes toma corpo e vida própria.
O Bom Dia Brasil não ficou para trás e trouxe “com exclusividade” as fotos da perícia e cópia do inquérito SIGILOSO do casal Ana Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni e vizinhos. A matéria de pouco mais de 6 minutos foi preenchida com 4 minutos da voz do repórter Maurício Ferraz (o ‘sortudo’ que teve acesso aos objetos) lendo passagens dos depoimentos. Praticamente nenhuma informação nova, apenas releituras e suposições, um graveto a mais nessa fogueira, para não apagar o furor da opinião popular, que nessas horas vira juiz e sabe com certeza quem é o culpado.
Seria favor de utilidade pública se a mídia ficasse quietinha e deixasse o caso “de lado” até tudo ser resolvido definitivamente e não apenas 60 ou 90 por cento do todo. As outras crianças continuam morrendo, o sertão está virando mar, o presidente está defendendo a política interna na Europa e, mais cedo ou mais tarde, outro furo vai dar o ar da graça. Até lá, tratar com respeito, imparcialidade e parcimônia o mistério em torno da morte de Isabella é questão de ética, lembrando sempre (como o professor Carlos Alberto Correia * gosta de frisar) de casos parecidos, como o da Escola Base, quando a irresponsabilidade ética de policiais e jornalistas condenaram professores inocentes.
Assista ao vídeo do Bom Dia Brasil de hoje
* O professor Carlos Alberto Correia ministra aulas de técnicas de reportagem e entrevista na Universidade Municipal de São Caetano do Sul – IMES.
Por Raquel Nantes Tavares