Política, mídia e desânimo
Ando meio desanimada com as coisas. A falta de bom senso é um bichinho conveniente.
Digo isso pela cobertura jornalística da semana passada. As atenções ficaram divididas entre as belezas japonesas, os desfiles da SPFW e os meninos mortos com a conivência do exército, no Rio de Janeiro.
A imigração é sempre um bom tema, afinal somos um mosaico de nações, mas quantos brasileiros continuam sonhando em sair correndo daqui, fugir para o Japão e ter uma outra vida, onde a diferença entre ricos e pobres não é anacrônica?
“A moda é coisa séria, movimenta dinheiro”, disse uma entrevistada no Fantástico (?) – não sei mais, estão todos tão iguais. É, pode até movimentar dinheiro, mas entre as pessoas de sempre, não é não? E o desaforo de ouvir que as modelos estão passando frio, porque os desfiles mostram as tendências para o próximo verão? Ou outra matéria muito interessante sobre o excesso de gordura na dieta pobre das modelos?
Estamos no inverno e as cidades continuam cheias de desabrigados, morrendo de frio.
O CQC mostrou uma matéria ácida sobre a dieta dos brasileiros. Somos uma nação de subnutridos, enfezados e mal informados. Bem mal informados.
Para completar, o exército metendo o bedelho onde não deveria ser chamado. Obras ilegais, candidatos e o Estado corruptos. O pior é que há eleições esse ano e a maioria das pessoas não entende que pode ser diferente, que há outras pessoas além das eternas figurinhas carimbadas e figurões da época da ditadura! Que a mudança começa do menor para o maior e que a sociedade tem os políticos que merece!
Reitero: estou desanimada e meia.
por Raquel Nantes Tavares
P.s.: sei que minha editoria é sobre a TV, mas como esse blog tem a proposta de analisar as mídias, permitam-me reclamar. Estranha a reação contra a multa dada à CBN e a Folha, por terem entrevistado a Marta Suplicy. O assunto virou editorial e assunto para o comentário da Lúcia Hipólito (dia 18/06). Infeliz comentário, aliás. Ela disse que não seria possível entrevistar todos os candidatos à prefeito, afinal existem alguns que estão em maior evidência e têm maior chance de ganhar as eleições, ao contrário de outros candidatos menores.
Ela se pauta em estáticas, mas é bom lembrar que as estáticas às vezes enganam – lembram o caso das eleições de 1989? Se não, assisitir ao documentário “Brasil, Muito Além do Cidadão Kane” – Sem contar que vivemos em uma democracia, ao meu ver os candidatos devem ter as mesmas chances de mostrar suas plataformas de campanha. Há tanto tempo a mesmice permeia a política, que seria bom dar uma chacoalhada e ver alguém diferente no poder, para variar.
Qual é o endereço do jornalista?
Já escrevi sobre o papel do jornalista/jornalismo. O social não pode ser deixado de lado, claro. O papel de denunciar, articular notícias e alertar é primordial.
Alguns exageram, avacalham e dançam em cima dos problemas sociais – acho que já escrevi sobre isso também. Alguns telejornais que se dizem do povo, que vivem essencialmente de denúncias policiais são assim. Exageram ao mostrar cenas sangrentas, bizarras… é preciso um pouco mais de parcimônia para não ultrapassar a tênue linha entre denúncia e sensacionalismo exacerbado. Dá audiência, mas esses jornais parecem estar tão engessados e acostumados com a aquela audiência vazia que esquecem o seu outro papel, o de enriquecer o conhecimento, esclarecer os cidadãos, fazê-los pensar.
Hoje, Marcos Hummel, âncora do “Fala Brasil”, da Record, deu um respiro de consciência em meio a cenas chocantes, do descaso do Estado em relação à saúde pública – tão conhecido dos brasileiros – um entrevistado exacerbado, mas parecendo âncora desses jornais que acabei de descrever.
Ele questionou o entrevistado, mas a pergunta, infelizmente, parecia retórica: “Qual é o endereço da justiça? Quem as pessoas precisam procurar para que o jornalismo não vire esse show de horror que é hoje?”.
E a denúncia feita pelo “Fantástico”, de ex-generais e não sei quem mais que soltam balões e acreditam estar acima da lei?
O papel que deveria ser do Estado, acaba passando para o jornalista, que querendo ou não, deixa de ser isento, precisa meter o bedelho e ser o chato da história. O jornalista não é o bonzinho, muitos querem mesmo essas cenas, como disse é o que dá mais dinheiro… mas vale a pena? Os problemas continuam, são reincidentes, crônicos.
O equilíbrio nunca chega e um dia vai cansar, ah vai! Eu acredito no ser humano, acredito na revolução também, mas não na armada. Acredito na revolução dos que questionam: “Qual é o caminho para que eu não participe mais desse show de horror?”.
por Raquel Nantes Tavares
Reportagens Especiais
Nós, aspirantes a jornalistas, somos inspirados pelos professores a ler, assistir e ouvir notícias. Sinceramente, eu duvido que exista um cidadão que viva sintonizado 24 horas por dia no que acontece no mundo, afinal, todos temos uma vida, precisamos trabalhar, estudar, namorar… é impossível saber de tudo.
E o hard news cansa, cansa muito. Claro, é sempre um desafio, exercitar a capacidade de escrever sobre um mesmo assunto dando diferentes enfoques a notícia, saber usar as palavras certas, para fazer um texto conciso, inteligível e rápido, tão rápido quanto os fatos acontecem.
Mas o que me atrai muito no jornal televisivo são as matérias especiais, é… os “Globo Repórteres” da vida, os “Fantásticos”, por que não? Não se pode negar a pitada de sensacionalismo de alguns, mas já no primeiro ano aprendemos que esse conceito é muito relativo, porque o sensacionalismo precisa estar presente em tudo o que produzimos no jornalismo. Aprendi então a tirar as vendas que atrapalhavam meus olhos e assistir a alguns programas sem um julgamento pré-estabelecido.
As matérias dessas “revistas eletrônicas” são mais apuradas e desenvolvidas, assim como as reportagens especiais que vemos nos telejornais do dia-a-dia. Nelas é que vemos a reflexão e repercussão dos fatos. Nelas é que aprendemos um pouco mais sobre um assunto, que às vezes nem sabíamos da existência.
Assisti hoje a uma matéria especial, de uma série que o “São Paulo Acontece”, da Band está veiculando essa semana sobre reciclagem. Mas não aquela reciclagem sobre a qual todo mundo está cansado de falar, mas sim, a reciclagem de materiais como concreto, óleo de cozinha, lâmpadas fluorescentes etc. Eu, pelo menos, nunca tinha parado para pensar sobre esses materiais e o destinado que podem ter depois da reciclagem. As reportagens cumprem seu papel de informar, mas com um algo a mais.
Gosto bastante das matérias frias, elas desaceleram um pouco o ritmo desenfreado das notícias de última hora e nos dão um tempo para respirar e refletir.
por Raquel Nantes Tavares