Além das notícias
Na Universidade discutimos o papel do jornalista: informar com acuidade, respeito ao interlocutor e da forma mais coesa e concisa possível.
Mas simplesmente “dar” a notícia não é o suficiente. O papel do comentarista é fundamental para refletir sobre os acontecimentos noticiados e a repercussão deles na sociedade. Talvez os indicadores econômicos, as eleições dos Estados Unidos ou o discurso de alguma autoridade não seria bem compreendido se os comentaristas não dessem o seu “pitaco”.
Esse é o real papel do jornalista: além de dar voz aos lados envolvidos em um fato, mostrar o que esse fato tem a ver com a minha vida. O Jornal da Noite, da Band, apresentado por Boris Casoy, é quase todo estruturado pelos comentários do âncora, maduro e experiente o suficiente para entender o que há de relevante na notícia.
Miriam Leitão, Alexandre Garcia – Bom Dia Brasil – Carlos Alberto Sardenberg, Arnaldo Jabor – Jornal da Globo – também representam o mesmo papel, o de considerar, ir além do assistir às notícias e reproduzir tudo sem refletir. Outros telejornais também trazem opinião, como o Jornal do SBT ou o Jornal Hoje, mas de maneira descontraída e popular. Mesmo assim, cumprem o papel de “chacoalhar” o telespectador.
Uma pena que faltem comentários no Jornal Nacional, por exemplo, uma das maiores audiências da Globo no horário nobre há quase 40 anos. Por que será?
Uma informação, dois interesses
O presidente anunciou um novo braço para o PAC, o industrial. O Brasil está crescendo, a economia ferve, tanto que os bancos aumentam os juros para frear impulsos consumistas da população. A indústria vai receber um auxílio, com a diminuição de impostos e incentivo fiscal. A idéia é aumentar a exportação, produzir mais, ganhar mais dinheiro, ficar igual o Tio Patinhas. Ok! Mas sempre há algo para se refletir, em qualquer assunto. O Jornal da Globo deu a notícia, mas trouxe o Carlos Alberto Sardenberg, para comentar e refletir sobre a medida.
O Jornal Nacional também trouxe um pouco de reflexão, deu voz para os dois lados da moeda, com um professor da Puc explicando porque o tal PAC não é tudo isso que o governo anuncia. Mas acho que o comentário do Sardenberg é muito mais pertinente e esclarecedor.
Aí é que está o problema. Quem assiste o Jornal Nacional, dificilmente fica acordado para ver o Jornal da Globo, afinal no outro dia precisa acordar cedo para o trabalho, faculdade etc. Mas vê-se exatamente como a linha editorial dos dois jornais são distintas, apesar de pertencerem à mesma emissora. Um é para o povão, o outro para os mais letrados. Mas somos todos farinha do mesmo saco. O problema é que um tem mais informação, porque estudou mais, logo sempre sabe e saberá mais. O outro estudou de menos, trabalhou demais, sempre sabe e saberá pouco. Que paradoxo!
A democracia não chegou à informação. Os que sabem pouco continuam sabendo pouco, os que sabem muito continuam sabendo cada vez mais. E a balança um dia vai acabar quebrando.
Eu cheguei a uma única conclusão, não sei se por influência do curso de jornalismo, mas creio que por trás dessa máscara de difundir o que acontece no mundo, o telejornal tem no fundo, no fundo o papel de entreter, não de cutucar, mas de confortar os seus receptores. Realmente não interessa que a massa pense, saiba o que acontece de verdade no país. Interessa mesmo é mantê-los quietinhos e satisfeitos.